quinta-feira, 21 de junho de 2012

Hoje

Hoje quero apenas ouvir. 
Que não diga palavra
E que não escute as que ouvir
Ouça-as e o som sem julgá-las.

Hoje quero apenas sentir
Aquilo que me chega.
Que me venha sem violência
E com infinita amplitude.

Palavras, gestos, cores e brisa
Completem-se em mim 
E, no simples estado de estar
Forneçam-me plenitude.

sábado, 3 de março de 2012

Peut-être

Amei-te.
Talvez pelas coxas
Que, em orgulho, disseste possuir.
Talvez pela simples presença
Ao lado meu, sem razão.
Mas quando te disse: "Olha-me!"
Vi e compreendi o que talvez não apreendeste.
Em simples olhar profundo
Que para ti não tenha sido nada além de estranho,
Vi e compreendi.
Oh, cobiça que não permitiu o que vi
Amei-te, talvez.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Sem título... ou à musa inspiradora

Olha aqui!
Não me digas
Que não sabes
Ou que não queres saber...

Presta atenção!
Para de fingir ouvir tudo
E escutar pouco.

Vem cá,
Senta-te e cala-te um instante.
A vida te passa pelos olhos e nem vês.

Chega mais perto,
Acalma-te: não te quero mal.
Quero apenas que vivas comigo
E para ti própria,
E pares de te ludibriar
E de te embebedar
Desse mundo mesquinho...
E que enfim aproveites de tua vida: a nossa vida.

sábado, 5 de novembro de 2011

Porque é

"tem noção de como uma mera possibilidade simplesmente 'é' "
Hoje quero que olhes para o céu
E não vejas aquilo que sempre viste
Ou ignoraste ver.
Olha àquela estrela de brilho esquisito
Encanta-te: ela te olha!
Pensa estar distante e próxima ao mesmo tempo.
Ama-a como a origem (que é)
De tudo o que é, o que foi
E de ti.
Olha.

sábado, 24 de setembro de 2011

O velho e o mar... poesia na praia do Havre

O velho caminha à beira da praia
A água ao seu joelho
O velho não tem roupa de banho:
Dobra a bermuda à virilha
E deixa molhar o joelho.

O vento passa pelo velho
E o velho passa pela praia

Crianças correm, brincam.
Umas atiram areia em outras,
Outras pulam pequenas ondas.
Crianças tão pequenas
Na mais pura inocência,
Belas.

Alguns jovens lançam suas pranchas.
Lançam-nas longe
Correm, instalam-se sobre elas
E escorregam, deslizam...

Mais à frente uma senhora tem uma prancha à mão
Chamá-la-ia velha o velho
Ela, com seus cinquenta anos,
Talvez um pouco menos
Talvez um pouco mais.
O velho pouco mais de vinte.
Não há ridículo:
Ela diverte-se.
Lança também a sua prancha
E corre para esbaldar-se sobre ela.

Um pouco mais a dentro um outro velho.
Este não fez questão de subir a bermuda.
Anda, sandálias à mão,
Camisa xadrez encharcada
O mar que o encobre.

Navios grandes que passam;
E o velho continua,
A água ao joelho
Sandálias em mão:
O velho sou eu.

24/09/2011, de dentro da praia do Havre

sábado, 30 de abril de 2011

Meditar

Que o meu meditar seja olhar as pessoas na praça,
E compreender a beleza dessa diversidade.
Que o meu olhar não se ofusque
Seja pela luz do sol,
Seja pelo preconceito
Que se enraiza e que nos inebria no fundo d'alma.
Que possa vê-las com os meus olhos,
Nada se pondo entre eles e o tudo.
E que nos encontros dos olhares nasça,
D'um sorriso, o brilho e a satisfação do instante.
E que desse momento de despreocupação e despretensão
Brote um sentimento mais leve
De ligamento e alcançamento da eternidade.

Madrid, 23 de abril

Subdesenvolvido, subdesenvolvido!

Em verdade, em verdade lhes digo: não basta apenas pertencer à União Europeia para se dizer desenvolvido. Acabo de chegar de dez dias de viagem pela Península Ibérica. Roteiro interessante pelas principais cidades. Principiei em Barcelona, cidade de constrastes entre o novo e o moderno, com obras de Gaudí, modernista do fim do século XIX, que de mim seria chamado louco. Em seguida Madrid, uma capital, com seus turistas e gente pelas ruas.
Em Portugal, todavia, fez-se mais visível o constraste em relação às demais partes da Europa, principalmente, às do centro norte europeu. Ainda que os serviços públicos tenham um funcionamento respeitável, contrariamente ao Brasil em sua maior parte, vê-se a distância do dito desenvolvimento face à falta de senso coletivo e também à degradação visual à que somos submetidos.
Passei por Lisboa, Coimbra e Porto, com alguns passeios em cidades vizinhas a esta última. Em todas é flagrante e fragrante a falta de conservação de todo o seu patrimônio. É histórico, sim, mas também o é sua manutenção.
No nível de preços, outro fator que demonstra um pouco o nível da população, estes variam entre o décimo e a menos da metade dos praticados nos outros países. A alimentação, que em geral torna o custo de vida altíssimo aqui na Europa, é tão ou mais barata que no Brasil! Por outro lado, parece-se que sua evolução, no que se refere à higiene e ao trato com o bem, parou à época de Cabral (mais um ponto para o Brasil, que mesmo é muito mais avançado que a França por exemplo, vide seus peixes e baguetes sob o braço). Pasmo é de se ficar no mercado central do Porto, o Bolhões: é um mercadão, uma feira livre em que feirantes oferecem peixes e frutas com a mesma mão...
Mas por fim, como dizia, é o senso de coletividade que mais falta faz aos povos do sul da Europa (incluam-se os italianos, ou os terroni, segundo a Liga Norte). A busca da vantagem, do jeitinho, única e exclusivamente pessoal é algo presente e que, tal como no Brasil, infelizmente compromete um viver melhor e um desenvolvimento mais igual. O exemplo disso, e a última impressão (e a que ficou) da passagem por Portugal, se deu no aeroporto, quando, com o voo para Paris já atrasado de duas horas, fomos atropelados numa muvuca eu e outros, principalmente franceses, que formávamos a fila para o embarque quando a porta para este foi aberta...