quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Sem título... ou à musa inspiradora

Olha aqui!
Não me digas
Que não sabes
Ou que não queres saber...

Presta atenção!
Para de fingir ouvir tudo
E escutar pouco.

Vem cá,
Senta-te e cala-te um instante.
A vida te passa pelos olhos e nem vês.

Chega mais perto,
Acalma-te: não te quero mal.
Quero apenas que vivas comigo
E para ti própria,
E pares de te ludibriar
E de te embebedar
Desse mundo mesquinho...
E que enfim aproveites de tua vida: a nossa vida.

sábado, 5 de novembro de 2011

Porque é

"tem noção de como uma mera possibilidade simplesmente 'é' "
Hoje quero que olhes para o céu
E não vejas aquilo que sempre viste
Ou ignoraste ver.
Olha àquela estrela de brilho esquisito
Encanta-te: ela te olha!
Pensa estar distante e próxima ao mesmo tempo.
Ama-a como a origem (que é)
De tudo o que é, o que foi
E de ti.
Olha.

sábado, 24 de setembro de 2011

O velho e o mar... poesia na praia do Havre

O velho caminha à beira da praia
A água ao seu joelho
O velho não tem roupa de banho:
Dobra a bermuda à virilha
E deixa molhar o joelho.

O vento passa pelo velho
E o velho passa pela praia

Crianças correm, brincam.
Umas atiram areia em outras,
Outras pulam pequenas ondas.
Crianças tão pequenas
Na mais pura inocência,
Belas.

Alguns jovens lançam suas pranchas.
Lançam-nas longe
Correm, instalam-se sobre elas
E escorregam, deslizam...

Mais à frente uma senhora tem uma prancha à mão
Chamá-la-ia velha o velho
Ela, com seus cinquenta anos,
Talvez um pouco menos
Talvez um pouco mais.
O velho pouco mais de vinte.
Não há ridículo:
Ela diverte-se.
Lança também a sua prancha
E corre para esbaldar-se sobre ela.

Um pouco mais a dentro um outro velho.
Este não fez questão de subir a bermuda.
Anda, sandálias à mão,
Camisa xadrez encharcada
O mar que o encobre.

Navios grandes que passam;
E o velho continua,
A água ao joelho
Sandálias em mão:
O velho sou eu.

24/09/2011, de dentro da praia do Havre

sábado, 30 de abril de 2011

Meditar

Que o meu meditar seja olhar as pessoas na praça,
E compreender a beleza dessa diversidade.
Que o meu olhar não se ofusque
Seja pela luz do sol,
Seja pelo preconceito
Que se enraiza e que nos inebria no fundo d'alma.
Que possa vê-las com os meus olhos,
Nada se pondo entre eles e o tudo.
E que nos encontros dos olhares nasça,
D'um sorriso, o brilho e a satisfação do instante.
E que desse momento de despreocupação e despretensão
Brote um sentimento mais leve
De ligamento e alcançamento da eternidade.

Madrid, 23 de abril

Subdesenvolvido, subdesenvolvido!

Em verdade, em verdade lhes digo: não basta apenas pertencer à União Europeia para se dizer desenvolvido. Acabo de chegar de dez dias de viagem pela Península Ibérica. Roteiro interessante pelas principais cidades. Principiei em Barcelona, cidade de constrastes entre o novo e o moderno, com obras de Gaudí, modernista do fim do século XIX, que de mim seria chamado louco. Em seguida Madrid, uma capital, com seus turistas e gente pelas ruas.
Em Portugal, todavia, fez-se mais visível o constraste em relação às demais partes da Europa, principalmente, às do centro norte europeu. Ainda que os serviços públicos tenham um funcionamento respeitável, contrariamente ao Brasil em sua maior parte, vê-se a distância do dito desenvolvimento face à falta de senso coletivo e também à degradação visual à que somos submetidos.
Passei por Lisboa, Coimbra e Porto, com alguns passeios em cidades vizinhas a esta última. Em todas é flagrante e fragrante a falta de conservação de todo o seu patrimônio. É histórico, sim, mas também o é sua manutenção.
No nível de preços, outro fator que demonstra um pouco o nível da população, estes variam entre o décimo e a menos da metade dos praticados nos outros países. A alimentação, que em geral torna o custo de vida altíssimo aqui na Europa, é tão ou mais barata que no Brasil! Por outro lado, parece-se que sua evolução, no que se refere à higiene e ao trato com o bem, parou à época de Cabral (mais um ponto para o Brasil, que mesmo é muito mais avançado que a França por exemplo, vide seus peixes e baguetes sob o braço). Pasmo é de se ficar no mercado central do Porto, o Bolhões: é um mercadão, uma feira livre em que feirantes oferecem peixes e frutas com a mesma mão...
Mas por fim, como dizia, é o senso de coletividade que mais falta faz aos povos do sul da Europa (incluam-se os italianos, ou os terroni, segundo a Liga Norte). A busca da vantagem, do jeitinho, única e exclusivamente pessoal é algo presente e que, tal como no Brasil, infelizmente compromete um viver melhor e um desenvolvimento mais igual. O exemplo disso, e a última impressão (e a que ficou) da passagem por Portugal, se deu no aeroporto, quando, com o voo para Paris já atrasado de duas horas, fomos atropelados numa muvuca eu e outros, principalmente franceses, que formávamos a fila para o embarque quando a porta para este foi aberta...

domingo, 20 de fevereiro de 2011

A criação de um monstro político?

Não acompanho muito a mídia francesa. Fora ver as manchetes dos jornais (Le Libération, Le Monde e Le Figaro - para equilibrar bem) de raro em raro, às vezes abro uns canais de notícias 24h no computador para ver os flashes do dia.
Há algumas semanas, no fim da tarde de domingo, deparei com um ser já bastante comentado mas que ainda não vira e menos analisara o conteúdo do discurso. Trata-se de Marine Le Pen, possível pré-candidata às presidenciais de 2012 aqui na França. Figura bastante comentada principalmente devido ao sobrenome: é a filha de Jean-Marie Le Pen, um conhecido e persistente ator da extremíssima direita, dono de um discurso inflamado e radical. Em 2002, ele, pelo fenômeno "Tiririca", viu-se levado ao segundo turno contra Chirac o que o trouxe mais à cena. (Acometidos pela barbárie do ocorrido, os franceses deram mais de 80% dos votos a Chirac então.)
Hoje mais uma vez tive a chance de ver essa senhora mais uma vez no mesmo canal I-Télé sendo jogada contra a parede pelos entrevistadores franceses (que, por sinal, com seu humor chegam a ser rudes mesmo com o seu presidente). Como seu pai, porta o discurso contra as imigrações, em defesa do cidadão francês, contra a UE, ajudas sociais etc. Questionada sobre a sua suposta xenofobia, uma pérola: "ce qui ne marche pas, c'est justement la diversité sociale".
Num período de crises ecônomicas e de protecionismo em marcha, o espaço dado a essa senhora é o que espanta. Dona de uma lábia fácil e de um discurso que consegue se desvencilhar das investidas, com raciocínios que fecham bem e parecem fazer sentido e solução aos olhos dos mais desinformados, Marine Le Pen apenas se beneficia e se propagandeia. Não é à toa que nas pesquisas de opinião ela já apareça quase empatada com Sarkozy...

A (ou em) busca da espiritualidade pela ciência

Há já algum tempo tomara conhecimento de um "cientista que provava a existência de Deus". Como título de um desses arquivos .doc que rolam pelos p2p e não se sabe como aparecem como resultado da busca. Mais tarde, tombei uma vez mais sobre algo do gênero e li uma entrevista do dito cientista em seu sítio, Amit Goswami. Trata-se de um físico que propõe algo muito maior e mais profundo do que sugeria o tal primeiro contato. Ainda assim ficou por isso mesmo. Acabei desenvolvendo eu próprio uma interpretação dessa sua teoria de acordo com minhas próprias convicções ou forma de ver o mundo.
Nas últimas férias de verão todavia -talvez umas das poucas e verdadeiras férias que já tive de fato- quando estava em Lyon e depois de ver o filme Inception (que na primeira vez pode nos deixar realmente sem chão), discutindo com um colega da Unicamp, começamos a desenvolver um pouco mais a ideia que eu havia retido da filosofia de Goswami. Isso me empurrou a procurar ver um pouco mais e melhor o que de fato ele propunha, ao que adquiri seu livro The Self-Aware Universe. É bastante fantástico como ele alia a Física Quântica, seu domínio, a correntes do pensamento filosófico global, com especial e estrita ênfase à filosofia oriental.
O que me faz trazer isso aqui hoje foi por ver um tópico no blog do Nassif sobre a ciência e a espiritualidade, onde postei um comentário que, de minha compreensão, tenta dar uma luz da filosofia de Goswami.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Os comedores de cenoura

Esse fim de semana fui enfim ao Musée d'Orsay, bem em frente ao Louvre. Com bastantes obras de grandes pintores que só vemos em livros: Van Gogh, Renoir, Cézanne... Uma obra incrível e grande que me impressionou todavia foi "Labourage Nivernais" (1849) de Rosa Bonheur, da qual nunca ouvira falar e de quem só soube algo agora pelo Wikipédia. Trata-se de praticamente uma fotografia de uma aragem à força animal. Virou fundo de tela.
Antes disso, reimpressionara-me algo que vira. Dois jovens que se sentaram no terraço do museu, frente a algumas esculturas para desfrutar de um pequeno lanche: cenouras. É algo recorrente entre os franceses - não sei se entre outros na Europa - o hábito de fazer um lanchinho comendo apenas e simplesmente uma cenoura. Uma cenoura crua, nada mais que isso. Na hora, escrevi no telefone "comedores de cenoura" para un post aqui e quem sabe algum outro escrito. Mais tarde, enquanto andava por Paris, ouvi um lojista que dizia a sua colega fazer uma pausa para comer algo: uma cenoura. É, sim, é algo comum e recorrente.
Por coincidência, vim a descobrir pelo Google ao verificar se já era tema de alguém, Van Gogh também já retratara em seus primórdios unss comedores de vegetais. Os seus, os de batata. Agora, isso sim me impressionaria: alguém que no meio da tarde, em vez de lanchar uma maçã, uma pera, ou até vai uma cenoura, parar para comer batatas.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Expectativas

O Brasil vive um momento único. Política e economicamente. A ascensão de uma "tecnocrata" à presidência do país, embora muitos usem essa denominação de forma pejorativa, pode representar enfim um salto há muito necessário no sistema, na forma de pensar o Estado. Digo ser mais apreciável, nesse caso, alguém com uma visão técnica e gerencial ter de caminhar e se enquadrar ao modo político que o contrário.
Fixado e estabilizado o sistema brasileiro, o governo tem uma chance que não se pode perder de avaçar na sua melhoria. Demandar quadros, cobrar resultados e estipular metas com certo despreendimento político é possível para o governo Dilma. Mulher de incomparável competência e conhecimento do país, pode - e deve- consertar algumas mazelas e instituir regras que permitam ao Brasil avançar a um desenvolvimento equilibrado e consistente. Deve trazer à tona a busca de uma visão a mais longo prazo, de Estado, e não presa sempre ao modelo político e personalista.
É momento de se hastearem bandeiras que norteiem o caminho de uma nação. Não é fácil. Se fará à base de alguns choques -de interesses, principalmente. Mas deve ser encarado como prioridade.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

A vida vem em ondas...

De longe aprendemos a olhar as coisas diferentemente. De fato, diz Amit Goswami, para fugirmos dos paradoxos e ter uma compreensão ampla, temos de nos colocar do lado de fora do sistema.
De longe, aprendo a ver o Brasil diferentemente a cada dia. Em tanto que povo, que política, que paisagem, que momento. Dá-se valor àquilo que no antes. Fundamentam-se repreensões aos vícios que sempre ali existiram.
As notícias vêm em sua maioria por esse próprio meio. Na maior parte, engajadas. Falta aquele olhar mais cotidiano, ouvinte das bases, do que se discute no bar, na padaria, com o carteiro.
Ainda assim, permitem um olhar diferente e que tentará aqui.